Mais uma vez, The Big C mostra que não é uma série sobre câncer. A palavra chave da temporada é autodescoberta.
Tudo começa em mais uma cena vergonhosa. Cathy mostra que não há limites quando o assunto é traumatizar o filho e embarca, mais uma vez, em seu desespero pelo tempo que está acabando. Ela quer tanto participar da vida de Adam e deixar algo de valioso na educação do garoto, que acaba estragando tudo. Honestamente, ela exagera. Chega ao ponto de eu me sentir mal pela conversa dos dois, de verdade.
O que ninguém podia imaginar é que toda a conversa embaraçosa sobre sexo e pornografia fosse para outro caminho. Eu, pelo menos, não esperava. Essa situação faz despertar a mulher dentro de Cathy e sim, eu sei o quanto essa frase está cafona, mas é a mais pura verdade. Foram muitos anos sendo invisível, pior, se esforçando para isso. Agora, que não há mais nada a perder, a não ser aquilo que não pôde viver. Cathy se liberta e se permite. Ela está mais do que certa.
Chega de se apegar a um casamento que não funciona. Cathy está disposta a saber mais sobre si mesma e ter novas experiências. Ela também quer ser ouvida e notada, passando a ter atitudes que jamais teria não fosse pela doença.
Pela primeira vez, acho que entendi a função de Paul. Ele é aquele que, mesmo sem a intenção, desperta Cathy para muitas verdades. Podem notar. Os comentários dele sempre se refletem naquilo que Cathy está fazendo.
Sobre o caso de Sean, só me resta comentar que mesmo de terno e com cabelos penteados esse homem parece encardido. E por mais que muita gente ache que Cathy está aí para mostrar que devemos valorizar nossas mães, eu não posso culpar Adam por suas reações. O moleque pode até ser uma mala sem alça, mas à vezes compreensão demais atrapalha.
Para rir e para chorar.
Não existe outra forma de descrever esse episódio de The Big C, meu favorito até agora, que teve essa incrível capacidade de misturar a comédia com a emoção do drama. O principal nisso tudo é que, tirando a parte das loucuras de Cathy, divertidíssimas por sinal, cada cena trazia aquela lembrança amarga de que a morte está cada vez mais próxima e não haverá tempo suficiente para fazer as coisas que se deseja.
A série explora muito bem esse sentimento e, embora nenhum de nós saiba se vai estar vivo amanhã, ter uma previsão de quanto tempo ainda resta deve ser sufocante. Talvez, por isso mesmo, tenham usado a metáfora das lagostas presas num aquário. Cathy precisa libertar a lagosta, porque também estava se libertando. Só não sei se jogar um animal marinho numa piscina de água doce foi exatamente a melhor forma de salvar o pobre crustáceo.
Nem preciso dizer que foi ótimo ver Cathy gastando o dinheiro de sua aposentadoria, literalmente mordendo o doce enquanto pode. Os momentos em que ela se permite viver sem amarras são os melhores. Os momentos de insanidade pura com o médico, fingindo ser outra pessoa, são inesquecíveis. Os dois atores funcionam muito bem em cena e ver o Dr. Todd entrar no jogo de sua paciente foi sensacional. Houve ainda os momentos de sensibilidade e de calma, quando encarar a verdade é inevitável. Esses encheram meus olhos de lágrimas, porque Cathy não está pedindo nada demais. Ela só quer viver e deixar sua marca no mundo.
Enquanto isso, Paul, digo Paulie, arruma uma Maria-Chuteira para chamar de sua. Confesso que ainda não compreendo muito bem o personagem de Oliver Platt, que é o mais alheio dentro da história e só é retratado como um falastrão, o que não é exatamente ruim. Outro pilantra de marca maior é Sean. Achei absurdamente tosca a ideia de que um soquinho daqueles iria arrancar justamente o dente que doía. Não entendo muito disso (além de uma traumatizante retirada de siso), mas me parece impossível tamanha precisão no golpe. Acho que se isso realmente fosse eficaz a gente não iria ao dentista, mas sim, para um ringue de boxe.
Mas, para mim, o pior de todos é Adam. Que adolescente mais escrotamente chato. Cathy não merece uma praga dessas em casa, com certeza. O moleque é mimizento, mimado e completamente imbecil, tanto, que resolve dar mais orgulho para a família roubando videogame. Graças aos céus, Marlene existe. Só mesmo ela, fingindo ser avó desse peste e fazendo chantagens para eu ficar completamente satisfeita.
Quem nunca ouviu falar que todo mundo morre sozinho? Pois em The Big C isso é verdade, pelo menos, até que o cachorro da vizinha descubra que você tem câncer.
Nem vou me estender nos elogios, porque isso já ficando chato. Mais um episódio de altíssima qualidade e cheio de pequenos momentos grandiosos e significativos. Isso basta. O grande C de Cathy continua sendo segredo. Não é que ela queira assim, mas pelo que vimos, não dá para contar com mais ninguém naquela família. Ou dá e a gente não sabe. Apesar de todos parecerem mais preocupados com o próprio umbigo, fato é que Cathy também os subestima. E não é para menos.
O irmão mora numa lixeira. E se você aí acha que toda mulher só pensa em cartão de crédito, descobriu que algumas até pegariam um semi-mendigo. Acho o luxo do lixo (ou seria o lixo do luxo) comer sushi naquela nababesca instalação. O importante é não perder o estilo.
O ex-marido rouba a gaveta de meias, fala meia dúzia de impropérios e monta uma mini praia na sala de estar para pedir Cathy em casamento mais uma vez. Romântico, mas só em pensar no trabalho que vai dar limpar toda aquela areia, o clima realmente vai embora.
O filho (e Cathy que me perdoe) está mais do certo de fugir da bicicleta dupla. Mico de proporções homéricas. Não dá para encarar sem uma dose de tequila antes e eu não recomendaria guiar aquilo com álcool no sangue.
Aí, vem o grupo de apoio. E aqui, eu concordo com Cathy em gênero, número e grau. Câncer não é um presente e chega uma hora em que você só quer extravasar a raiva por viver nessa situação. Até para pensamento positivo existe um limite.
Verdade seja dita, essa ira fez bem à Cathy. Ela saiu do ponto morto, embora possa parecer irônico. O problema é que mesmo sabendo que sim, todo mundo morre sozinho, ninguém quer passar por isso sem ninguém. Especialmente no caso de uma doença como essas, que vai consumindo sua saúde aos poucos.
Cathy nem podia imaginar que alguém já sabia. Seu segredo não era nada para Thomas, o cachorro que provou ter mais sensibilidade que os personagens humanos dessa série. Junto com Thomas, Cathy ganhou Marlene e assim, o time cresce. Parece que, afinal, se você tiver cachorros e vizinhos, jamais morrerá sozinho.
O segredo continua.
Impressionante. Cathy simplesmente não consegue dizer a ninguém o que está se passando por ela. E já que tentar é inútil, ela aposta em atitude para viver ao máximo o tempo que lhe resta. O resultado? Diversas situações ótimas, que fazem desse, mais um episódio exemplar, perfeitamente balanceado entre humor e emoção.
É impossível não rir de Cathy tendo conversas sexualmente estranhas com o irmão bizarro. Também é impossível não rir ao vê-la perseguir o ônibus que levaria o filho ao acampamento de verão, munida de arma de paintball e um discurso que mataria qualquer adolescente de vergonha. Até mesmo quando ela decide tomar um banho de sol completamente nua e se decepciona com um marido excitado, que não é capaz de diferenciar (talvez de propósito) grass de ass. Você ri, porque é cotidiano e engraçado, mas tudo te leva a pensar na real situação.
Cathy está morrendo e precisa tomar medidas desesperadas. Ela quer aproveitar enquanto pode e cada coisinha que faz, é apenas para que sua vida inteira não seja um completo desperdício. Como o câncer ainda é segredo, ela parece louca aos olhos da maioria. O filho não entende porque tanto apego repentino. A vizinha estranha o modo de agir da nova amiga e o marido fica bestificado ao ver a atitude dela durante a terapia de casal. Aliás, nada poderia ser mais ridículo e Cathy sabe disso. Terapia de casal é um desperdício de vida quando seu tempo é incerto.
A única pessoa com quem Cathy pode ser completamente honesta é seu médico, Todd. Aquelas consultas são mais do que rotina. Representam momentos de libertação e pura sinceridade. Esses sentimentos, aos poucos, vão dominando a personalidade de Cathy. Ela não pode mais controlar seus impulsos e pelo que pudemos notar, o tempo que ela tem pode até ser curto, mas certamente, será muito intenso.
Câncer é, sem dúvida, a doença mais explorada na TV americana. Com todo o risco de cair nos usuais clichês, The Big C faz melhor e mostra que o assunto ainda pode ser tratado de forma interessante.
Eu odeio câncer. E digo isso com satisfação. Não é apenas a doença, mas o fato de que, na TV americana, há uma regra da qual não se pode fugir: Toda a série teve, tem ou terá um personagem com câncer.
Podem reparar e começar a repassar na memória para tentar encontrar as que nunca exploraram o assunto. Serão poucas e raras, porque câncer, com o perdão do trocadilho mórbido, se espalha com velocidade incrível pela mente dos roteiristas, que abusam desse recurso sempre que podem, ou melhor, quando não podem pensar em coisa que seja diferente.
Mas eis que o Showtime surge com The Big C, nova produção estrelada pela talentosa Laura Linney, atriz pra lá de competente, que eu adoro. Em grande parte por ela, resolvi assistir ao piloto da série e não me arrependi.
O elenco é ótimo e o roteiro consegue ser criativo, mesmo quando trata desse imenso clichê. Essa, aliás, é uma qualidade difícil de alcançar. É tanto câncer por aí que não há situação, dramática ou de comédia que ainda não tenhamos visto na telinha. Porém, é como eu costumo dizer: clichê bem empregado sempre funciona e esse é o caso.
A história central e óbvia mostra o modo com Cathy Jamison (Laura Linney) lida com a descoberta de um melanoma em estágio quatro. Ela já passou dos quarenta anos e está meio perdida, infeliz, impotente com a vida que sempre levou e que ela sabe, está prestes a acabar. É interessante notar como ela começa a dominar a situação. Cathy começa no mais completo desespero e aí mora a criatividade de roteiro. Não temos longas cenas de choro e lamentação. Cathy simplesmente decide mudar e isso inclui construir uma piscina no jardim, brigar com a vizinha esquisita, enfrentar os alunos babacas, se impor diante do marido infantilóide e ser mais firme com o filho adolescente. O câncer desperta Cathy para a vida que ela quer ter, em resumo.
Um dos pontos interessantes do Piloto está nas inúmeras tentativas que ela faz em contar para alguém que está doente. É impossível. Cada vez é pior que a anterior, até que ela decide que talvez, o cachorro possa ouvir sua revelação.
No elenco, temos ainda Oliver Platt, que interpreta Paul, o marido odiador de cebolas; John Benjamin Heckey, como Sean, o irmão que come restos e quer mudar o mundo protestando em estacionamento de supermercados; Gabriel Basso, como Adam, o filho mais pentelho do mundo e Phylis Sommervile, como Marlene, a vizinha rabugenta.
Temos ainda a participação de Gabourey Sibide, que muitos devem conhecer do filme “Precious”, ganhador de dois Oscars. Ela encarna Andrea, uma das alunas de Cathy, que entra numa aposta com a professora, que pagará 100 dólares para cada quilo que ela perder.
E há ainda o médico de Cathy, Dr.Todd (Reid Scott), que está lidando com sua primeira paciente e parece que estará mais envolvido com ela do que seria normal.
Já deu para perceber que o universo desses personagens é bastante rico e será bem explorado. O fato de a produção apostar em episódio de meia hora é outra vantagem, que deixa a série mais dinâmica e caprichada. Eu nunca pensei que diria isso, mas vejam The Big C. Talvez uma série sobre câncer finalmente nos surpreenda.